{"id":763,"date":"2020-11-05T13:49:04","date_gmt":"2020-11-05T13:49:04","guid":{"rendered":"https:\/\/museudoporto.pt\/?post_type=signal&#038;p=763"},"modified":"2020-11-05T13:49:04","modified_gmt":"2020-11-05T13:49:04","slug":"missiva-2","status":"publish","type":"signal","link":"https:\/\/museudoporto.pt\/en\/signal\/missiva-2\/","title":{"rendered":"Missiva #2"},"template":"","class_list":["post-763","signal","type-signal","status-publish","hentry"],"acf":{"number":"2","file":{"ID":5083,"id":5083,"title":"Missiva002","filename":"Missiva002.pdf","filesize":38711,"url":"https:\/\/museudoporto.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Missiva002.pdf","link":"https:\/\/museudoporto.pt\/en\/signal\/missivas-da-posta-restante\/missiva002-2\/","alt":"","author":"18","description":"","caption":"","name":"missiva002-2","status":"inherit","uploaded_to":725,"date":"2020-11-05 13:43:08","modified":"2020-11-05 13:43:08","menu_order":0,"mime_type":"application\/pdf","type":"application","subtype":"pdf","icon":"https:\/\/museudoporto.pt\/wp-includes\/images\/media\/document.png"},"description":"<p>Emanuelle Coccia<br \/>\n<em><u>A Vida das Plantas, uma metaf\u00edsica da mistura<\/u><\/em><br \/>\nFunda\u00e7\u00e3o Carmona &amp; Costa, Documenta, (Edi\u00e7\u00e3o de Pedro A. H. Paix\u00e3o; tradu\u00e7\u00e3o de Jorge Leandro Rosa), Lisboa, 2019.<\/p>\n<p><strong>Tudo est\u00e1 em tudo<\/strong><\/p>\n<p>[98] Se viver \u00e9 respirar, ser\u00e1 porque a nossa rela\u00e7\u00e3o com o mundo n\u00e3o \u00e9 ser-lan\u00e7ado ou o ser-no-mundo, nem sequer a rela\u00e7\u00e3o de controlo de um sujeito sobre um objecto que lhe fa\u00e7a face: ser-no-mundo significa ter a experi\u00eancia de uma imers\u00e3o transcendental. A imers\u00e3o \u2014 de que a respira\u00e7\u00e3o \u00e9 a din\u00e2mica original \u2014 define-se como uma iner\u00eancia ou uma imbrica\u00e7\u00e3o rec\u00edproca. Estamos em alguma coisa com a mesma intensidade e a mesma for\u00e7a com que ela est\u00e1 em n\u00f3s. \u00c9 a reciprocidade da iner\u00eancia que faz da respira\u00e7\u00e3o uma condi\u00e7\u00e3o sem sa\u00edda: \u00e9 imposs\u00edvel libertarmo-nos do meio no qual estamos imersos, \u00e9 imposs\u00edvel purificar esse meio da nossa presen\u00e7a.<br \/>\nInspirar \u00e9 fazer o mundo vir a n\u00f3s \u2014 o mundo est\u00e1 em n\u00f3s \u2014 e expirar \u00e9 projectarmo-nos no mundo que somos. Ser-no-mundo n\u00e3o \u00e9 simplesmente encontrar-se num horizonte \u00faltimo contendo tudo o que podemos e poderemos aperceber, viver ou sonhar. Desde que come\u00e7amos a viver, pensar, perceber, sonhar, respirar, o mundo, nos seus detalhes infinitos, est\u00e1 em n\u00f3s, penetra material e espiritualmente o nosso corpo e a nossa alma e d\u00e1 forma, consist\u00eancia e realidade a tudo o que somos. O mundo n\u00e3o \u00e9 um lugar: \u00e9 o estado de imers\u00e3o de todas as coisas em todas as outras coisas, a mistura que derruba instantaneamente a rela\u00e7\u00e3o de iner\u00eancia topol\u00f3gica.<br \/>\n[&#8230;]<\/p>\n<p>[100] Tudo est\u00e1 em tudo. Esta mistura faz do mundo e do espa\u00e7o a realidade de uma transmissibilidade e de uma tradutibilidade universal das formas. Mas aquilo a que chamamos transmiss\u00e3o \u00e9 somente o eco desta iner\u00eancia rec\u00edproca e de toda a coisa em qualquer outra coisa: o mundo \u00e9 um perp\u00e9tuo cont\u00e1gio.<br \/>\nSe tudo est\u00e1 em tudo, ser\u00e1 porque tudo deve poder circular no mundo, transmitir-se, traduzir-se. A impenetrabilidade que frequentemente imagin\u00e1mos como forma paradigm\u00e1tica do espa\u00e7o \u00e9 apenas uma ilus\u00e3o: onde h\u00e1 um obst\u00e1culo \u00e0 transmiss\u00e3o e \u00e0 interpenetra\u00e7\u00e3o, um novo plano aparece, permitindo aos corpos derrubarem a iner\u00eancia que a\u00ed se estabelecera, numa interpenetra\u00e7\u00e3o rec\u00edproca. Tudo no mundo produz a mistura e se faz na mistura. Tudo entra e sai de tudo: o mundo \u00e9 abertura, liberdade, absoluta circula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o lado a lado, mas atrav\u00e9s dos corpos e dos outros.<br \/>\n[&#8230;]<\/p>\n<p>[101] Fazer do mundo a realidade deste derrube perp\u00e9tuo da iner\u00eancia de tudo em tudo significa fazer do espa\u00e7o, n\u00e3o o nome da exterioridade generalizada, mas o da interioridade universal: ter em si tudo o que nos cont\u00e9m.<br \/>\nA extens\u00e3o, a corporeidade, n\u00e3o \u00e9 o espa\u00e7o onde o ser \u00e9 exterior a qualquer outra coisa (partes extra partes) com uma intensidade que coincide com o seu conatus sese conservandi. O espa\u00e7o \u00e9, pelo contr\u00e1rio, a experi\u00eancia onde qualquer coisa se exp\u00f5e a ser atravessada por qualquer outra coisa e se esfor\u00e7a por atravessar o mundo em todas as suas formas, consist\u00eancias, cores, odores.<br \/>\nO espa\u00e7o e a extens\u00e3o s\u00e3o, portanto, as for\u00e7as que permitem a toda a coisa respirar, estender-se e entrela\u00e7ar-se no sopro: respirar \u00e9 deixar-se penetrar pelo mundo para fazer do mundo alguma coisa que \u00e9 tamb\u00e9m feita do nosso sopro.<br \/>\nTudo respira e tudo \u00e9 respira\u00e7\u00e3o na medida em que tudo se compenetra.<\/p>\n","media":false},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/museudoporto.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/signal\/763","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/museudoporto.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/signal"}],"about":[{"href":"https:\/\/museudoporto.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/signal"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/museudoporto.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=763"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}