{"id":767,"date":"2020-11-05T13:59:00","date_gmt":"2020-11-05T13:59:00","guid":{"rendered":"https:\/\/museudoporto.pt\/?post_type=signal&#038;p=767"},"modified":"2020-11-05T13:59:00","modified_gmt":"2020-11-05T13:59:00","slug":"missiva-4","status":"publish","type":"signal","link":"https:\/\/museudoporto.pt\/en\/signal\/missiva-4\/","title":{"rendered":"Missiva #4"},"template":"","class_list":["post-767","signal","type-signal","status-publish","hentry"],"acf":{"number":"4","file":{"ID":5085,"id":5085,"title":"Missiva004","filename":"Missiva004.pdf","filesize":40337,"url":"https:\/\/museudoporto.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Missiva004.pdf","link":"https:\/\/museudoporto.pt\/en\/signal\/missivas-da-posta-restante\/missiva004-2\/","alt":"","author":"18","description":"","caption":"","name":"missiva004-2","status":"inherit","uploaded_to":725,"date":"2020-11-05 13:43:13","modified":"2020-11-05 13:43:13","menu_order":0,"mime_type":"application\/pdf","type":"application","subtype":"pdf","icon":"https:\/\/museudoporto.pt\/wp-includes\/images\/media\/document.png"},"description":"<p>David Abram<br \/>\n<em><u>A Magia do Sens\u00edvel<\/u><\/em><br \/>\nFunda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2007<\/p>\n<p>[233]\u00a0Nada \u00e9 mais comum \u00e0s diversas culturas ind\u00edgenas da Terra do que um reconhecimento do ar, do vento e da respira\u00e7\u00e3o como aspectos de um poder singularmente sagrado. Em virtude da sua penetrante presen\u00e7a, da sua completa invisibilidade e da sua influ\u00eancia manifesta em todos os g\u00e9neros de fen\u00f3menos vis\u00edveis, o ar, para os povos orais, \u00e9 o arqu\u00e9tipo de tudo o que \u00e9 inef\u00e1vel, incognosc\u00edvel, mas inegavelmente real e eficaz. Os seus \u00f3bvios la\u00e7os com a fala \u2014 a sensa\u00e7\u00e3o de que as palavras faladas s\u00e3o respira\u00e7\u00e3o estruturada (tentem pronunciar uma palavra sem expirar ao mesmo tempo) e que essas frases faladas tiram, de facto, o seu poder comunicativo deste meio invis\u00edvel que se move entre n\u00f3s \u2014 d\u00e3o ao ar uma profunda associa\u00e7\u00e3o com o significado lingu\u00edstico e com o pensamento. De facto, a inefabilidade do ar parece aparentada com a inefabilidade da pr\u00f3pria consci\u00eancia, e n\u00e3o deveria ser motivo de surpresa que muitos povos ind\u00edgenas interpretem a consci\u00eancia, ou \u201cesp\u00edrito\u201d, n\u00e3o como um poder que reside no interior das suas cabe\u00e7as, mas antes como uma qualidade em que eles pr\u00f3prios est\u00e3o dentro de, juntamente com os outros animais e as plantas, as montanhas e as nuvens.<\/p>\n<p>[235]\u00a0Entretanto, o cachimbo da paz \u00e9, para os Lakotas*, o mais wakan (sagrado) de tudo o que possuem. Esculpido em escuro barro vermelho que apenas de encontra nas plan\u00edcies do norte \u2014 uma pedra considerada como sendo o sangue petrificado dos antepassados \u2014 o cachimbo sagrado \u00e9 fumado de maneira ritual em todas as cerim\u00f3nias lakotas, desde a cabana de suda\u00e7\u00e3o \u00e0 Dan\u00e7a do Sol. O fumo do cachimbo torna vis\u00edvel a invis\u00edvel respira\u00e7\u00e3o e, quando sobe do cachimbo, torna vis\u00edveis os fluxos e as correntes no pr\u00f3prio ar, torna vis\u00edveis as conex\u00f5es que n\u00e3o se v\u00eaem entre os que fumam o cachimbo como oferenda e todas as outras entidades que habitam dentro do mundo: os povos alados, os outros povos que caminham e os que rastejam, e os m\u00faltiplos seres providos de ra\u00edzes \u2014 \u00e1rvores, ervas, arbustos, musgos. Al\u00e9m disso, o fumo, que se eleva, transporta as preces do povo lakota para os seres do c\u00e9u \u2014 para o Sol e para a Lua, para as estrelas, para os seres do trov\u00e3o e para as nuvens, para todos esses poderes abra\u00e7ados por woniya wakan, o ar sagrado.<\/p>\n<blockquote><p>\n<em>Woniya wakan<\/em>\u00a0\u2014 o ar sagrado \u2014 que tudo renova com a sua respira\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<em>Woniya, woniya wakan<\/em>\u00a0\u2014 esp\u00edrito, vida, respira\u00e7\u00e3o, renova\u00e7\u00e3o \u2014 significa tudo isso.<br \/>\n<em>Woniya<\/em>\u00a0\u2014 sentamo-nos juntos, n\u00e3o nos tocamos, mas algo est\u00e1 a\u00ed; sentimo-lo entre n\u00f3s, como uma presen\u00e7a<\/p>\n<p>John Fire Lame Deer,\u00a0<em>Seeker of Visions<\/em>\u00a0NY, 1972, p.119.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>[260]\u00a0No mundo oral e animista da Europa pr\u00e9-crist\u00e3 e camponesa, todas as coisas \u2014 animais, florestas, rios e cavernas \u2014 tinham o poder da fala expressiva, e o meio prim\u00e1rio deste discurso colectivo era o ar. Na aus\u00eancia da escrita, a express\u00e3o falada humana, quer se impregnasse em cantos, em narrativas ou em sons espont\u00e2neos, era insepar\u00e1vel da respira\u00e7\u00e3o exalada. A atmosfera invis\u00edvel era, pois, o intermedi\u00e1rio assumido em toda a comunica\u00e7\u00e3o, uma zona de subtis influ\u00eancias que se cruzavam, misturavam e metamorfoseavam. Este reino invis\u00edvel mas palp\u00e1vel de sopros e aromas, de emana\u00e7\u00f5es vegetativas e exala\u00e7\u00f5es animais, era tamb\u00e9m o reposit\u00f3rio oculto de vozes ancestrais, a p\u00e1tria de hist\u00f3rias ainda por contar, de fantasmas e vivas intelig\u00eancias \u2014 uma esp\u00e9cie de campo colectivo de significa\u00e7\u00e3o de onde a consci\u00eancia individual continuamente emergia e para onde continuamente se retirava, com cada inspira\u00e7\u00e3o e expira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><small>[* Os\u00a0<em>Lakotas<\/em>\u00a0s\u00e3o uma tribo nativa americana. S\u00e3o tamb\u00e9m conhecidos como\u00a0<em>Teton Sioux<\/em>\u00a0(de\u00a0<em>Th\u00edt\u021fu\u014bwa\u014b<\/em>), eles s\u00e3o uma das tr\u00eas tribos da Grande Na\u00e7\u00e3o Sioux. As suas terras atuais situam-se no Dakota do Norte e do Sul]<\/small><\/p>\n","media":false},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/museudoporto.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/signal\/767","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/museudoporto.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/signal"}],"about":[{"href":"https:\/\/museudoporto.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/signal"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/museudoporto.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=767"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}