{"id":784,"date":"2020-11-05T14:07:13","date_gmt":"2020-11-05T14:07:13","guid":{"rendered":"https:\/\/museudoporto.pt\/?post_type=signal&#038;p=784"},"modified":"2020-11-05T14:07:13","modified_gmt":"2020-11-05T14:07:13","slug":"missiva-7","status":"publish","type":"signal","link":"https:\/\/museudoporto.pt\/en\/signal\/missiva-7\/","title":{"rendered":"Missiva #7"},"template":"","class_list":["post-784","signal","type-signal","status-publish","hentry"],"acf":{"number":"7","file":{"ID":5088,"id":5088,"title":"Missiva007","filename":"Missiva007.pdf","filesize":39293,"url":"https:\/\/museudoporto.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Missiva007.pdf","link":"https:\/\/museudoporto.pt\/en\/signal\/missivas-da-posta-restante\/missiva007-2\/","alt":"","author":"18","description":"","caption":"","name":"missiva007-2","status":"inherit","uploaded_to":725,"date":"2020-11-05 13:43:20","modified":"2020-11-05 13:43:20","menu_order":0,"mime_type":"application\/pdf","type":"application","subtype":"pdf","icon":"https:\/\/museudoporto.pt\/wp-includes\/images\/media\/document.png"},"description":"<p>Jos\u00e9 Gil<br \/>\n<u>Caos e Ritmo<\/u><br \/>\nRel\u00f3gio d\u2019\u00c1gua, Lisboa, 2018<\/p>\n<p><strong>A t\u00e9cnica dos sopros<br \/>\n[sobre o Teatro da Crueldade de Antonin Artaud]<\/strong><\/p>\n<p>[154]\u00a0Perguntemo-nos, por fim, atrav\u00e9s de que meios acreditava Artaud poder regenerar o seu corpo e curar a humanidade doente. [&#8230;]<br \/>\nArtaud concebeu toda uma t\u00e9cnica que associava estreitamente \u00e0 encena\u00e7\u00e3o teatral, de tal maneira que o efeito terap\u00eautico do Teatro da Crueldade fazia parte da sua defini\u00e7\u00e3o: se o gesto teatral produzia uma \u201cmetaf\u00edsica em actividade\u201d, se fazia nascer no espa\u00e7o figuras-incarna\u00e7\u00f5es do sentido, era porque a sua ac\u00e7\u00e3o sobre os corpos (do actor e do espectador) podia tornar-se t\u00e3o potente que penetrava o mais profundo das carnes, descobrindo nela \u201cas mais subtis no\u00e7\u00f5es\u201d. Como obtinha ele esta \u201cefic\u00e1cia m\u00e1gica\u201d, quer dizer, real? Gra\u00e7as \u00e0 sua t\u00e9cnica da respira\u00e7\u00e3o e do grito.<br \/>\n\u00c9 em \u201cUn athl\u00e9tisme affectif\u201d (texto de\u00a0<em>O Teatro e o Seu Duplo<\/em>) que Artaud enuncia as ideias directrizes da sua t\u00e9cnica das respira\u00e7\u00f5es. Estas implicam uma certa concep\u00e7\u00e3o do corpo do actor (e do corpo sem mais); da ac\u00e7\u00e3o da respira\u00e7\u00e3o sobre os org\u00e3os, atrav\u00e9s da vontade; da no\u00e7\u00e3o da alma e da respira\u00e7\u00e3o que une a alma ao corpo. [&#8230;]<br \/>\n<span class=\"morphing-grid__page-number\">[155]<\/span>\u00a0O corpo afectivo \u00e9, assim, um \u201ccorpo espectral\u201d sobre o qual o actor age: \u201cEspectro pl\u00e1stico e nunca acabado, cujas formas o actor verdadeiro imita, ao qual imp\u00f5e as formas e a imagem da sua sensibilidade. \u00c9 sobre este duplo que o teatro influi, esta ef\u00edgie espectral que modela\u201d. Como o modela? Atrav\u00e9s da respira\u00e7\u00e3o. Porque \u201c\u00e9 certo que a cada sentimento, a cada movimento do esp\u00edrito corresponde uma respira\u00e7\u00e3o que lhe pertence\u201d. Esta correspond\u00eancia efectua-se realmente no corpo espectral da afectividade uma vez que \u201ca respira\u00e7\u00e3o acompanha o sentimento e se pode penetrar no sentimento pela respira\u00e7\u00e3o\u201d. Na realidade, a respira\u00e7\u00e3o percorre todo o corpo afectivo, \u00e9 como o sangue do corpo do atleta, atingindo todos os org\u00e3os, todos os pontos not\u00e1veis, todas as \u201clocaliza\u00e7\u00f5es\u201d da anatomia afectiva. O que se deve \u00e0s propriedades da respira\u00e7\u00e3o, que tem um ritmo que varia, um\u00a0<em>tempo<\/em>, uma \u201cforma\u201d (que provem dos \u201ctempos\u201d \u2014 \u201cos tempos da respira\u00e7\u00e3o t\u00eam um nome que a Cabala nos ensina; s\u00e3o eles que d\u00e3o ao cora\u00e7\u00e3o humano a sua forma; e o seu sexo aos movimentos das paix\u00f5es\u201d).<br \/>\nEm segundo lugar, a respira\u00e7\u00e3o \u00e9 uma\u00a0<em>for\u00e7a<\/em>\u00a0pl\u00e1stica que pode agir fisicamente sobre o corpo. Viajar atrav\u00e9s do corpo espectral da afectividade, \u201ccaptando e fazendo irradiar certas for\u00e7as [&#8230;], for\u00e7as que t\u00eam o seu trajecto material de org\u00e3os e\u00a0<em>nos org\u00e3os<\/em>\u201d. Eis como a respira\u00e7\u00e3o pode transformar totalmente o corpo humano para que este se torne \u201cum corpo superior\u201d: \u201ch\u00e1 na respira\u00e7\u00e3o humana oscila\u00e7\u00f5es e quebras de tom, e de um grito para outro grito transfer\u00eancias bruscas atrav\u00e9s do que podem ser subitamente evocados aberturas e impulsos do corpo inteiro das coisas, podendo sustentar ou liquefazer um membro, como uma \u00e1rvore que se apoiasse sobre a montanha da sua floresta. \/ Ora o corpo tem uma respira\u00e7\u00e3o e um grito os quais podem tomar-se nos n\u00edveis inferiores decompostos do organismo e transportar-se visivelmente at\u00e9 esses altos planos irradiantes onde o corpo superior o espera.\u201d [&#8230;]<\/p>\n<p>[156]\u00a0Em terceiro lugar, a respira\u00e7\u00e3o \u00e9 o elemento que une (ou antes que \u201carticula\u201d) o corpo com a alma. Porque \u201cfisiologicamente podemos reduzir a alma a um emaranhado de vibra\u00e7\u00f5es [&#8230;].<br \/>\nA cren\u00e7a numa materialidade flu\u00eddica da alma \u00e9 indispens\u00e1vel ao of\u00edcio do actor. Saber que uma paix\u00e3o \u00e9 mat\u00e9ria, que est\u00e1 sujeita \u00e0s flutua\u00e7\u00f5es pl\u00e1sticas da mat\u00e9ria, d\u00e1 sobre as paix\u00f5es um imp\u00e9rio que estende a nossa soberania. Chegar \u00e0s paix\u00f5es atrav\u00e9s das suas for\u00e7as, em vez de as considerar como abstrac\u00e7\u00f5es puras, confere ao actor uma mestria que o iguala a um verdadeiro curandeiro.\u201d<\/p>\n","media":false},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/museudoporto.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/signal\/784","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/museudoporto.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/signal"}],"about":[{"href":"https:\/\/museudoporto.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/signal"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/museudoporto.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=784"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}