{"id":786,"date":"2020-11-05T14:11:36","date_gmt":"2020-11-05T14:11:36","guid":{"rendered":"https:\/\/museudoporto.pt\/?post_type=signal&#038;p=786"},"modified":"2020-11-05T14:11:36","modified_gmt":"2020-11-05T14:11:36","slug":"missiva-9","status":"publish","type":"signal","link":"https:\/\/museudoporto.pt\/en\/signal\/missiva-9\/","title":{"rendered":"Missiva #9"},"template":"","class_list":["post-786","signal","type-signal","status-publish","hentry"],"acf":{"number":"9","file":{"ID":5090,"id":5090,"title":"Missiva009","filename":"Missiva009.pdf","filesize":40024,"url":"https:\/\/museudoporto.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Missiva009.pdf","link":"https:\/\/museudoporto.pt\/en\/signal\/missivas-da-posta-restante\/missiva009-2\/","alt":"","author":"18","description":"","caption":"","name":"missiva009-2","status":"inherit","uploaded_to":725,"date":"2020-11-05 13:43:25","modified":"2020-11-05 13:43:25","menu_order":0,"mime_type":"application\/pdf","type":"application","subtype":"pdf","icon":"https:\/\/museudoporto.pt\/wp-includes\/images\/media\/document.png"},"description":"<p>Georges Didi-Hubermann<br \/>\n<em><u>Gestes d\u2019Air et de Pierre<\/u><\/em><br \/>\nLes \u00c9ditions de Minuit, Paris, 2005<br \/>\n[Tradu\u00e7\u00e3o MdC]<\/p>\n<p>[13]\u00a0Marcel Proust morreu de asma nervosa. Os m\u00e9dicos revelaram-se impotentes perante a doen\u00e7a, \u201cmas n\u00e3o o pr\u00f3prio escritor\u201d, como lembra Walter Benjamin, \u201cque deliberadamente a colocou ao seu pr\u00f3prio servi\u00e7o\u201d, sobretudo para extrair algumas imagens fortes: \u201cO ru\u00eddo da minha respira\u00e7\u00e3o sobrep\u00f5e-se ao da minha pena.&#8221;<br \/>\nBenjamin comenta que &#8220;esta asma entrou na sua obra, a menos que seja uma cria\u00e7\u00e3o da sua arte. A sintaxe conjuga-se ao ritmo das crises de ansiedade e asfixia. E a sua ir\u00f3nica, filos\u00f3fica e did\u00e1tica reflex\u00e3o torna-se sempre um modo de respirar de al\u00edvio, quando o peso das mem\u00f3rias lhe \u00e9 retirado do cora\u00e7\u00e3o. Mas numa maior escala, a morte que esteve sempre presente no seu esp\u00edrito e que o amea\u00e7ava, especialmente quando escrevia, era a morte por asfixia. Foi dessa forma que a morte permaneceu diante dele muito antes da doen\u00e7a atingir estados mais cr\u00edticos.\u201d [&#8230;]<br \/>\nAssim que percebemos como particularizar a persist\u00eancia das mem\u00f3rias do olfato (que n\u00e3o s\u00e3o o mesmo que odores presentes na mem\u00f3ria), n\u00e3o podemos tomar como acidental a sensibilidade de Proust em rela\u00e7\u00e3o aos cheiros.<br \/>\nCertamente que a maioria das mem\u00f3rias que estudamos nos aparecem como imagens visuais.<br \/>\nE essas mem\u00f3rias olfativas, que tamb\u00e9m s\u00e3o forma\u00e7\u00f5es livres da\u00a0<em>mem\u00f3ria involunt\u00e1ria<\/em>, s\u00e3o ainda imagens visuais, surgindo muitas vezes isoladas, mas cuja presen\u00e7a permanece enigm\u00e1tica. E \u00e9 precisamente por isso que, se queremos conhecer a vibra\u00e7\u00e3o mais secreta da sua obra, devemos penetrar numa camada singular e mais profunda desta mem\u00f3ria involunt\u00e1ria, onde os seus elementos n\u00e3o nos falam mais de forma isolada, ou sob a forma de imagens, mas antes sem imagem e forma, como o peso da rede que avisa o pescador da sua captura. O cheiro \u00e9 essa sensa\u00e7\u00e3o de peso para quem lan\u00e7a uma rede no oceano do tempo perdido.<br \/>\n[14]\u00a0O ar \u00e9 o maior ve\u00edculo, o\u00a0<em>portador<\/em>\u00a0da palavra. \u00c9 o meio f\u00edsico gra\u00e7as ao qual \u2014 e atrav\u00e9s do qual \u2014 ela chega at\u00e9 n\u00f3s. Mas o ar \u00e9 j\u00e1, na boca e nos pulm\u00f5es do orador,\u00a0<em>mat\u00e9ria<\/em>\u00a0quase org\u00e2nica articulada, acentuada, respirada e modulada, o fraseado da nossa fala, do nosso pensamento. \u00c9 de admirar que a grande obra de Pierre F\u00e9dida sobre a\u00a0<em>aus\u00eancia<\/em>\u00a0\u2014 esse &#8220;trabalho de uma vida&#8221;, como Gilles Deleuze, em 1978, j\u00e1 o descrevia \u2014 tenha ganho a consist\u00eancia, nos \u00faltimos dez anos de vida, de um\u00a0<em>pensamento do ar<\/em>\u00a0como sendo, n\u00e3o apenas o ve\u00edculo da fala \u2014 do lamento e da can\u00e7\u00e3o \u2014, mas tamb\u00e9m o meio do figur\u00e1vel, o pr\u00f3prio movimento atmosf\u00e9rico e fluido, o inconsciente enquanto tal?<br \/>\n[26]\u00a0Quando inspiramos, o ar ambiente \u00e9 por excel\u00eancia material da exterioridade, que penetra o nosso corpo at\u00e9 ao fundo dos pulm\u00f5es, muito fundo, quase at\u00e9 \u00e0s entranhas. Quando expiramos, \u00e9 a mat\u00e9ria da nossa interioridade que se manifesta no sentido contr\u00e1rio, espalhando-se no espa\u00e7o circundante.<br \/>\nEssa troca t\u00e3o comum quanto necess\u00e1ria para a manuten\u00e7\u00e3o da vida, \u00e9 dotada, sabemo-lo, de uma grande plasticidade ps\u00edquica.<br \/>\nNum estudo agora cl\u00e1ssico, Daniel Lagache mostrou o papel eminente da respira\u00e7\u00e3o como gatilho para alucina\u00e7\u00f5es verbais:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cEntre o discurso normal e o discurso alucinat\u00f3rio, n\u00e3o h\u00e1 um intervalo livre. Sufocado pela abund\u00e2ncia e rapidez do discurso, o paciente respira ruidosamente e o in\u00edcio do processo alucinat\u00f3rio inscreve-se nessa recupera\u00e7\u00e3o. Apesar desta circunst\u00e2ncia, que \u00e9 apercebida pelo paciente de forma confusa, comparando o discurso parasita a um fole de forja, o processo alucinat\u00f3rio n\u00e3o tem tend\u00eancia tornar-se numa &#8220;voz interior&#8221; e, apesar de &#8220;inspirada&#8221;, a voz permanece longe. [&#8230;] A passagem do fluxo expirat\u00f3rio de ar pela laringe e pela boca \u00e9 a mat\u00e9ria que informa a fona\u00e7\u00e3o e a articula\u00e7\u00e3o, no discurso normal e em certas, sen\u00e3o em todas, as alucina\u00e7\u00f5es verbais.\u201d<\/p><\/blockquote>\n","media":false},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/museudoporto.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/signal\/786","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/museudoporto.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/signal"}],"about":[{"href":"https:\/\/museudoporto.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/signal"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/museudoporto.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=786"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}