{"id":799,"date":"2020-11-05T14:22:27","date_gmt":"2020-11-05T14:22:27","guid":{"rendered":"https:\/\/museudoporto.pt\/?post_type=signal&#038;p=799"},"modified":"2020-11-05T14:47:34","modified_gmt":"2020-11-05T14:47:34","slug":"missiva-21","status":"publish","type":"signal","link":"https:\/\/museudoporto.pt\/en\/signal\/missiva-21\/","title":{"rendered":"Missiva #21"},"template":"","class_list":["post-799","signal","type-signal","status-publish","hentry"],"acf":{"number":"21","file":{"ID":5102,"id":5102,"title":"Missiva021","filename":"Missiva021.pdf","filesize":35970,"url":"https:\/\/museudoporto.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Missiva021.pdf","link":"https:\/\/museudoporto.pt\/en\/signal\/missivas-da-posta-restante\/missiva021-2\/","alt":"","author":"18","description":"","caption":"","name":"missiva021-2","status":"inherit","uploaded_to":725,"date":"2020-11-05 13:43:54","modified":"2020-11-05 13:43:54","menu_order":0,"mime_type":"application\/pdf","type":"application","subtype":"pdf","icon":"https:\/\/museudoporto.pt\/wp-includes\/images\/media\/document.png"},"description":"<p>Emanuele Coccia<br \/>\n<em><u>M\u00e9tamorphoses<\/u><\/em><br \/>\nEdi\u00e7\u00f5es Payot &amp; Rivages, Paris, 2020<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o MDC<\/p>\n<p><strong>A Arquitecturea Interespef\u00edcica<\/strong><\/p>\n<p>[255]\u00a0O ambiente natural na\u0303o existe. O mundo e\u0301 sempre em todas as suas partes, concebido, desenhado, construi\u0301do. E, o que e\u0301 mais importante, o espac\u0327o e\u0301 sempre concebido e construi\u0301do por outras espe\u0301cies, e por outras espe\u0301cies que aquelas que o ocupam. E\u0301 a raza\u0303o pela qual as relac\u0327o\u0303es com o mundo na\u0303o sa\u0303o nunca simplesmente fi\u0301sicas ou naturais, mas sempre poli\u0301ticas. Estar no mundo significa, para cada espe\u0301cie, viver no espac\u0327o concebido e construi\u0301do por outros. Viver significa sempre ocupar, invadir um espac\u0327o estrangeiro e negociar o que poderia ser um espac\u0327o partilhado.<\/p>\n<p>[256]\u00a0Partamos do feno\u0301meno mais comum, mais trivial do ser vivo (ou, ao menos, dos animais): a respirac\u0327a\u0303o. A nossa relac\u0327a\u0303o com o mundo e\u0301, em primeira insta\u0302ncia, ae\u0301rea. O espac\u0327o para no\u0301s na\u0303o e\u0301 somente um espac\u0327o a percorrer, a ver, a tocar. Todo o espac\u0327o habita\u0301vel deve ser um espac\u0327o respira\u0301vel. O espac\u0327o e\u0301, enta\u0303o, antes de mais o objecto da respirac\u0327a\u0303o, o alimento dos nossos pulmo\u0303es. Por esta raza\u0303o, o acto arquitecto\u0301nico inaugural na\u0303o e\u0301 a construc\u0327a\u0303o de muros, mas a climatizac\u0327a\u0303o.<\/p>\n<p>Temos o ha\u0301bito de pensar que a respirac\u0327a\u0303o e\u0301 o movimento mais natural, a relac\u0327a\u0303o mais evidente e ordina\u0301ria, que nos liga ao mundo e ao espac\u0327o. Estamos habituados a pensar o ar como o mais natural dos elementos, aquele que existe na forma mais pura, para ale\u0301m de qualquer acto de manipulac\u0327a\u0303o da natureza. No entanto, o ar, com o seu teor de oxige\u0301nio de 21%, na\u0303o e\u0301 mais que um sub-produto da vida vegetal. E\u0301 aquilo que resulta do metabolismo das plantas, o desperdi\u0301cio produzido pela sua existe\u0302ncia. Por outras palavras, e\u0301 uma entidade modificada por algue\u0301m, um artefacto. O derivado de um plano, de um projecto no mundo, que na\u0303o prove\u0301m dos homens ou dos indivi\u0301duos pertencentes a espe\u0301cies ligadas a\u0300 humanidade. No entanto, o resultado desta concepc\u0327a\u0303o acidental e na\u0303o-humana torna o mundo habita\u0301vel ao ser humano. Sabemos que a instalac\u0327a\u0303o definitiva dos animais sobre a terra so\u0301 foi possi\u0301vel grac\u0327as a\u0300 metamorfose radical do espac\u0327o ae\u0301reo que rodeia e envolve a crosta terrestre, produzida pela invasa\u0303o vegetal e a actividade das cianobacte\u0301rias. Sem o oxige\u0301nio produzido por fotossi\u0301ntese, a atmosfera terrestre na\u0303o teria podido mudar sustentada- mente a sua composic\u0327a\u0303o interna e tornar-se o ambiente mais imediato de todo o ser vivo. Deste ponto de vista, o mundo e\u0301 bem mais uma entidade vegetal do que uma entidade zoolo\u0301gica. Um jardim ao inve\u0301s de um zoo. Se o mundo e\u0301 um jardim, as plantas na\u0303o sa\u0303o, ou na\u0303o sa\u0303o verdadeiramente, ou apenas, o conteu\u0301do deste jardim, os seus habitantes. Sa\u0303o antes jardineiras em si mesmas. Reconhecer este facto significa que a Terra na\u0303o tem nada de transcendente ou de original: e\u0301 um objecto de jardinagem. No\u0301s, como todos os outros animais, somos o objecto da acc\u0327a\u0303o de jardinagem dos vegetais. No\u0301s somos um dos seus produtos culturais e agri\u0301colas. Podemos dizer que as plantas na\u0303o compo\u0303em a paisagem, mas sa\u0303o os primeiros paisagistas. Elas metamorfoseiam o mundo.<\/p>\n<p>[258]\u00a0Este facto muito simples merece ser generalizado, e ser considerado como o exemplo paradigma\u0301tico da relac\u0327a\u0303o entre uma espe\u0301cie e o espac\u0327o. Na\u0303o sa\u0303o exclusivamente as plantas que produzem a apare\u0302ncia do nosso mundo, que moldam e remodelam a Terra, mas tambe\u0301m cada ser vivo. O agenciamento arquitecto\u0301nico ou urbano na\u0303o e\u0301 algo que se limite a\u0300 acc\u0327a\u0303o do ser humano, e\u0301 a faculdade mais gene\u0301rica de um ser vivo.<\/p>\n<p>E\u0301 a conseque\u0302ncia a retirar da evide\u0302ncia da nossa natureza animal: se o espi\u0301rito e\u0301 um assunto de a\u0301tomos, tecidos e mole\u0301culas, enta\u0303o o espi\u0301rito esta\u0301 em todo o lado, esta\u0301 em todas as espe\u0301cies vivas. A biologia e\u0301 enta\u0303o uma fenomenologia do espi\u0301rito co\u0301smico. E a raza\u0303o exprime-se atrave\u0301s de formas na\u0303o-humanas, que herda\u0301mos e interioriza\u0301mos.<\/p>\n<p>[259]\u00a0Cada espe\u0301cie e\u0301 um actor consciente, capaz na\u0303o somente de errar e de fazer ma\u0301s escolhas, como de comportamentos arbitra\u0301rios, que na\u0303o relevam necessariamente daquilo que e\u0301 melhor e mais u\u0301til para si. Toda a espe\u0301cie viva tem assim uma relac\u0327a\u0303o tambe\u0301m este\u0301tica com o mundo que a rodeia.<\/p>\n","media":false},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/museudoporto.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/signal\/799","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/museudoporto.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/signal"}],"about":[{"href":"https:\/\/museudoporto.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/signal"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/museudoporto.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=799"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}