Notice 234
piano
No próximo domingo, 1 de março, o coração histórico do Porto acolhe dois concertos inaugurais que assinalam o arranque de novos ciclos musicais na cidade. Às 16 horas, o Museu Romântico recebe o concerto de abertura do VI Festival Internacional de Piano Santa Cecília 2026. Pelas 18 horas, é a vez da Igreja de Santa Clara abrir portas ao ciclo “A Música e o Órgão Ibérico – Ciclo de Concertos no Centro Histórico do Porto em 3 atos”, integrado no programa MALHA. Porto, Património de Pessoas. – iniciativa que promove redes de programação cultural em diálogo com o património urbano.
Entre piano e órgão ibérico, o domingo propõe um percurso que atravessa séculos de criação musical, ativando dois espaços emblemáticos da cidade e dois modos distintos de escuta.
O VI Festival Internacional de Piano Santa Cecília apresenta-se, este ano, numa edição que se desenrola ao longo de dez concertos, entre 1 de março e 10 de maio, sempre aos domingos, às 16 horas, no Museu Romântico. Dedicado à valorização de jovens pianistas emergentes provenientes de diversos países, entre os quais Coreia do Sul, China, França, República Checa, Rússia e Ucrânia, o festival afirma-se como plataforma de projeção internacional e espaço de encontro entre tradição e contemporaneidade.
O concerto de abertura, no dia 1 de março (entrada livre), reúne Luca Newman (Reino Unido/Japão) e Adam Znamirovský (República Checa): dois intérpretes que representam uma nova geração de músicos já distinguidos em concursos internacionais e com presença regular em salas de referência europeias.
O programa articula diferentes linguagens e períodos da literatura pianística: a Sonata n.º 47 em Si menor, Hob. XVI:32, de Joseph Haydn, afirma o rigor formal clássico; os 3 Andamentos de Petrushka, de Igor Stravinsky, exploram uma escrita virtuosística e rítmica de grande intensidade; a Toccata de Le Tombeau de Couperin, de Maurice Ravel, evidencia a subtileza tímbrica e a elegância da escrita francesa do início do século XX, contrastando com o lirismo do Nocturno; Op. 62 n.º 1, de Frédéric Chopin e os Estudos-Quadros, Op. 39, de Sergei Rachmaninoff, terminam o programa com páginas de forte dramatismo e densidade expressiva.
Danças Ibéricas inauguram ciclo dedicado à música e órgão ibéricos no âmbito do MALHA
No mesmo dia, às 18 horas, na Igreja de Santa Clara, abre portas ao ciclo “A Música e o Órgão Ibérico – Ciclo de Concertos no Centro Histórico do Porto em 3 atos”, um projeto que se estende até dezembro e integra o programa MALHA. Porto, Património de Pessoas., que celebra a criação artística em diálogo com o património urbano e assinala os 30 anos da classificação do Centro Histórico do Porto como Património Mundial.
Estruturado em três momentos, Tons Ibéricos: a retórica da Música Ibérica, Pontes Ibéricas: encontros nas margens ibéricas e Conjunções Ibéricas: entre o sagrado e o humano, o ciclo é de entrada gratuita sujeita à lotação do espaço.
O concerto, integrado no ato Conjunções Ibéricas, propõe uma reflexão sonora sobre a transformação da dança no repertório organístico dos séculos XVI e XVII. Após o Concílio de Trento, a Igreja definiu princípios gerais para a música sacra, insistindo no decoro, na inteligibilidade e na subordinação da música à função litúrgica. Na Península Ibérica, a distância geográfica e cultural em relação ao Vaticano permitiu uma leitura própria do espírito pós-tridentino, profundamente funcional e musicalmente inventiva. O órgão estava plenamente integrados na vida litúrgica e a música sacra era concebida como resposta a necessidades rituais específicas.
É neste contexto que se deve compreender a presença de danças no repertório litúrgico. O facto destas formas serem usadas na igreja pressupõe a sua ampla difusão social. São danças populares, cortesãs ou teatrais porque eram conhecidas e memorizáveis. Ao entrarem na liturgia são transformadas. O gesto corporal suspende-se, o andamento abranda ou estabiliza, o texto desaparece, e a dança torna-se esquema formal, repetição, variação e retórica sonora, revelando uma permeabilidade singular entre o espaço sagrado e o universo festivo.
O programa percorre este território de conjunções através de obras de Antonio de Cabezón, Luys Milán, Juan Bautista Cabanilles, Antonio Martín y Coll, José Ximénez e Bernardo Storace, compositores que testemunham a vitalidade da tradição ibérica e a sua capacidade de integrar linguagens seculares no espaço ritual. Mais do que evocação histórica, Danças Ibéricas reativa funções musicais ainda reconhecíveis: deslocação, solenidade, festa. Tocadas hoje, estas peças continuam a moldar o tempo da escuta e a criar comunidade no espaço arquitetónico da igreja. A entrada é livre, sujeita à lotação do espaço.
O segundo momento do ciclo realiza-se a 28 de março, às 18h30, na Igreja dos Clérigos, com o Concerto para Dois Órgãos Ibéricos, por Pedro Monteiro e Rui Soares, integrado no ato Pontes Ibéricas, no dia em que se celebra o Dia Nacional dos Centros Históricos.