Notice 225
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No dia 13 de dezembro, às 18h30, a Sé do Porto acolhe o concerto “Órgãos Históricos da Sé do Porto” – último momento do ciclo “Pontes Ibéricas: Um Álbum Musical em 4 Concertos”, que explora as relações entre a tradição ibérica e as estéticas musicais europeias. O organista e investigador Pedro Monteiro interpreta um programa que atravessa a história da música do século XVI ao século XXI, especialmente concebido para os dois órgãos históricos, o Órgão do Evangelho e o Órgão da Epístola.
Este último momento do ciclo reúne património, musicologia e criação artística no mesmo princípio: apresentar repertórios em instrumentos concebidos para diferentes práticas estéticas, evidenciando o papel central da Península Ibérica na circulação musical entre os períodos renascentista, barroco e contemporâneo.
Dois órgãos históricos: especificidades, épocas e identidades sonoras
A Sé do Porto conserva dois instrumentos de referência na história organística nacional, ambos integrados na arquitetura da capela-mor, mas representativos de momentos distintos da tradição ibérica.
O concerto foi estruturado para evidenciar as qualidades próprias de cada instrumento: a primeira parte decorre no Órgão do Evangelho; a segunda parte, no Órgão da Epístola.
O Órgão do Evangelho, construído por Simão Fontanes e concluído em 1737, classificado como Tesouro Nacional, é exemplar da estética ibérica dos séculos XVII e XVIII: registos partidos que permitem independência entre mãos, claridade das linhas polifónicas e riqueza de palhetas horizontais.
A sua construção liga-se diretamente à prática ibérica do tiento, à escrita contrapontística densa e ao uso expressivo do cromatismo modal.
O Órgão da Epístola, terminado em 1836 por Joaquim António Peres Fontanes (neto do primeiro construtor), reflete a transição para o final do Barroco e para o Classicismo. Possui maior amplitude dinâmica, palhetas mais robustas, uma conceção sonora mais versátil e maior projeção do discurso melódico, adequando-se ao repertório tardio ibérico e à escrita mais expansiva do século XVIII e início do XIX.
O programa: ecos históricos, afinidades e contrastes
O programa apresenta obras que atravessam diferentes geografias e épocas, destacando como o órgão ibérico absorveu influências europeias e as reinterpretou através das suas próprias técnicas e recursos sonoros.
Na primeira parte, o Órgão do Evangelho acolhe obras de António Carreira, Juan Cabanilles e Aguilera de Heredia, representantes maiores do repertório ibérico renascentista e barroco, marcados pela escrita imitativa, pela exploração dos registos partidos e por uma linguagem modal que combina rigor contrapontístico e forte expressividade.
Estas obras dialogam com transcrições de Ligeti e Pärt, cujas texturas, embora modernas, revelam proximidade com a clareza estrutural e a espiritualidade que caracterizam o repertório ibérico inicial.
Na segunda parte, o Órgão da Epístola recebe obras de Philip Glass, António Correa Braga, William Susman, Guy Bovet e novamente Ligeti. A força rítmica das peças contemporâneas e a sua construção em torno de repetição, variação e pulsação contínua encontram afinidades com géneros ibéricos como as batalhas, as variações sobre baixo ostinato e as estruturas seccionais típicas do século XVIII.
A inclusão da Batalha de 6.º tom de Correa Braga, obra emblemática da prática portuguesa setecentista, evidencia a capacidade deste instrumento para acolher repertórios mais exigentes do ponto de vista técnico e expressivo.
O concerto estabelece pontes entre formas históricas e estéticas contemporâneas, exemplificando como diferentes épocas convergem quando interpretadas em instrumentos concebidos para a ressonância monumental de um espaço como a Sé do Porto. O espetáculo é de entrada livre.
Música em circulação
O programa “Pontes Ibéricas: Um Álbum Musical em 4 Concertos” explorou, ao longo do ano, a península como espaço de ligação entre tradições europeias.
O ciclo procurou destacar a forma como o repertório ibérico absorveu a ornamentação italiana, as danças francesas, a densidade germânica e a fantasia nórdica, integrando-as numa linguagem própria que se projetou para outros continentes.