Nova 219
Igreja Santa Clara - Rui Oliveira/CMP
O ciclo “Pontes Ibéricas: um álbum musical em quatro concertos” prossegue na próxima sexta-feira, 31 de outubro, às 21h30, na Igreja de Santa Clara, com o terceiro recital da série “O Diálogo com Itália”. A mudança do horário, inicialmente previsto para as 18h30, permite ao público ouvir a música barroca à noite, aproveitando a acústica e a monumentalidade do órgão. Com entrada livre, o concerto vai explorar a relação entre os órgãos ibérico e italiano dos séculos XVII e XVIII.
Entre o rigor do contraponto e a expressividade barroca, o programa conduz o público por um percurso musical que reflete a intensa circulação de ideias, estilos e formas na Europa. A interpretação está a cargo do organista Pedro Monteiro, num instrumento que, pela sua acústica e monumentalidade, ressoa de forma singular na Igreja de Santa Clara.
Compositores que cruzaram fronteiras
O repertório reúne compositores ibéricos e italianos que marcaram o desenvolvimento da música para órgão: Pablo Bruna, Juan Cabanilles, Martín y Coll e João de Sousa Carvalho, em diálogo com Giovanni Gabrieli, Girolamo Frescobaldi, Michelangelo Rossi, Bernardo Storace e Domenico Scarlatti.
Pontes sonoras entre o Norte e o Sul
Entre tentos, ricercari, canzonas, correntes, ciaccone, chaconas e toccatas, o público é convidado a ouvir as “pontes” musicais que uniram tradições ibéricas e italianas, do contraponto austero do século XVII ao virtuosismo expressivo do século XVIII. Mais do que um encontro entre geografias, o concerto destaca o órgão como mediador de linguagens, um instrumento capaz de traduzir o rigor das escolas do Norte e a exuberância expressiva do Sul.
O diálogo com Itália e a evolução do gosto
As obras apresentadas revelam a circulação de mestres, partituras e ideias entre conventos, catedrais e cortes europeias, testemunhando a vitalidade da prática organística peninsular. O diálogo com Itália é também um espelho da evolução do gosto: das estruturas imitativas herdadas do Renascimento ao esplendor ornamental do barroco tardio e às transformações do classicismo. Frescobaldi e Rossi projetam a Itália como laboratório de invenção harmónica; Bruna, Cabanilles e Martín y Coll reinterpretam-na com identidade própria; e em Scarlatti e Sousa Carvalho encontram-se os dois mundos num ponto de fusão perfeito, o virtuosismo aliado à melodia cantável.
Uma escuta histórica e um ciclo em conclusão
“Pontes Ibéricas III” não é apenas um concerto, mas uma escuta histórica, um convite a reconhecer nos tubos do órgão as viagens da música e as afinidades que moldaram o som europeu.
O ciclo encerra na Sé do Porto, com o quarto e último concerto, a 13 de dezembro, um momento que reunirá as influências e sonoridades exploradas ao longo desta travessia musical pelas “pontes” da Península Ibérica.