UMA PALAVRA E SEUS DISCURSOS

O Porto é uma cidade de Palavra e de palavras. Mais do que monumentos e objetos, talvez esse apego e essa semântica própria, e a sua pronúncia, com vogais mais abertas, definam a sua personalidade e o seu carácter. Por isso, o amado ciclo de conversas portuenses «Um Objeto e seus Discursos» reencarna agora como «Uma Palavra e seus Discursos».

Entre março e outubro, partimos à redescoberta de 11 palavras eminentemente portuenses – do seu património, aura ou mistério: pronúncia, granito, cimbalino, dragão, vinho, burguesia, tripas, muralha, coração, ribeira e liberdade.

Com a ajuda de convidados de diferentes sensibilidades – historiadores e poetas, políticos e jornalistas, artistas e gastrónomos, entre outros – partimos à redescoberta da semântica mais querida, distintiva ou problemática do Porto. Debatemos os seus significados, a sua memória, o seu devir.

Ao mesmo tempo, percorremos casas e lugares destas palavras.

Iniciativa do Pelouro da Cultura do Município do Porto, este ciclo é organizado pelo Museu e Bibliotecas do Porto, tendo por moderadores Nuno Camarneiro (também curador), Minês Castanheira e Tito Couto.

Com forte consciência histórica e política, o Porto sempre é uma cidade de ideais e palavras ditas.

«PRONÚNCIA»

MAR

UMA PALAVRA E SEUS DISCURSOS — «PRONÚNCIA»

21

Mercado do Bolhão. Fotografia de João Pedro Rocha / CMP

O Porto com suas palavras
que sobem do coração,
o Porto com sua pronúncia
de quatro pedras na mão.

 

João Pedro Mésseder

 

O que dizemos e como o dizemos, o canto que levamos na voz de todos os dias, as palavras que trocamos, os silêncios que partilhamos. Não existe uma pronúncia do Norte, há muitas pronúncias e muitos Nortes, há milhares de cidades escondidas nas almas e nas vozes portuenses.

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«GRANITO»

ABR

UMA PALAVRA E SEUS DISCURSOS — «GRANITO»

04

Antiga Casa da Câmara. Fotografia de Rui Oliveira

Porto
– cidade de luz de granito.
Tristeza de luz viril
com punhos de grito.

José Gomes Ferreira

 

Dizem dela que é austera, sombria e escura. A pedra cinzenta que lhe cobre as ruas e com a qual se edificou a Sé, a Torre dos Clérigos, a estação de São Bento e os Paços do Concelho é antiga como o mundo e guarda nela séculos de história, muitos segredos e a determinação silenciosa de quem nasceu para resistir.

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«CIMBALINO»

ABR

UMA PALAVRA E SEUS DISCURSOS — «CIMBALINO»

18

António Cruz Caldas, 1932. Desenho original a tinta-da-china para publicação no jornal “Pirolito”, ilustrando o Zé Povinho e homens ilustres do Porto, com o slogan do café “A Brasileira”

O Porto é só esta atenção empenhada em escutar os passos dos velhos, que a certas horas atravessam a rua para passarem os dias no café em frente, os olhos vazios, as lágrimas todas das crianças de S. Victor correndo nos sulcos da sua melancolia.

Eugénio de Andrade

 

Uma chávena de café, um jornal aberto e a cidade inteira a acordar. No Piolho, no Ceuta, no Guarany, na Brasileira, no Aviz ou no Majestic, pedia-se um cimbalino, sacudiam-se as páginas impressas e o mundo inteiro ia passando pelos dedos. As grandes manchetes e as notícias locais, o desporto, os negócios, o tempo para amanhã e até a necrologia. Um tempo que passou mas que resiste ainda nas mãos de quem o pratica.

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«DRAGÃO»

MAI

UMA PALAVRA E SEUS DISCURSOS — «DRAGÃO»

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Brasão da Fonte de São Domingos. Fotografia de Filipa Brito / CMP

O Porto não é em rigor uma cidade: é uma família.

João Chagas

 

Não apenas um ser mitológico, mas um símbolo em que os habitantes da cidade se reconhecem. No brasão, o azul sustém um castelo de ouro sobre um mar ondulado; ao centro, a Virgem de Vandoma com o Menino, por cima das pedras, o dragão – corpo de fogo, asas e garras – a memória do cerco e da coragem de quem resistiu. No estádio, nas ruas, nos Paços do Concelho, sempre a mesma promessa, a de não baixar a cabeça.

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«VINHO»

MAI

UMA PALAVRA E SEUS DISCURSOS — «VINHO»

16

Ponto do Cachão da Baleira. Fonte: Forrester, 1848, constante no «Mappa do Douro portuguez e paiz adjacente contando do rio quanto se pode tornar navegável em Espanha»

Nos entrepostos dos cais em armazéns,
comerciantes trocam por esterlino
o vinho que é o sangue dos seus corpos,
moeda pobre que são os seus destinos.

Joaquim Namorado

 

A palavra não designa apenas uma bebida: é antes um rio antigo que ainda corre e o esforço inteiro de muitas gerações. Não é apenas vinho, mas tempo e sabedoria. O Vinho do Porto é o Douro a descer devagar, são pipas que mastigam os anos no escuro das caves e a doçura lenta em que se transforma a dureza da terra.

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«BURGUESIA»

MAI

UMA PALAVRA E SEUS DISCURSOS — «BURGUESIA»

30

Quinta da Casa Tait, c. 1900. Grupo de homens na escadaria da quinta. Centro Português de Fotografia. Coleção Aurélio da Paz dos Reis

Na rua escura as lojas de oiro e pano
São pedras frias, frígidas mas quietas.
Ó frios mercadores de oiro e pano
Porto! Mercado frio e desumano…
E no entanto ali é que há Poetas!

Pedro Homem de Mello

 

Palavra dita à pressa, com a rua na boca. No Porto, a palavra cola-se a uma cidade autónoma, de iniciativa e comércio, que aprendeu cedo a decidir por si e a negociar o seu lugar. Mas burguesia é também poder: quem entra, quem manda, quem fica de fora. Que cidade é esta que foi sendo feita? Que papel representa no país que queremos contruir?

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«TRIPAS»

JUN

UMA PALAVRA E SEUS DISCURSOS — «TRIPAS»

06

Tripas à moda do Porto. Fotografia de Filipa Brito / CMP

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

Álvaro de Campos

 

Uma palavra que é prato e metáfora, história e temperamento. As tripas à moda do Porto contam-se como gesto antigo de generosidade e escassez – dar o melhor e ficar com o resto – e, desde então, a cidade aprendeu a reconhecer-se nesse binómio e a fazer das tripas coração.

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«MURALHA»

JUN

UMA PALAVRA E SEUS DISCURSOS — «MURALHA»

20

Porta do Olival da Muralha Fernandina, 1946. Reprodução de desenho aguarelado de Gouveia Portuense (1907—1976). Acervo do Arquivo Histórico Municipal do Porto

Toda a cidade, com as agulhas dos templos, as torres cinzentas, os pátios e os muros em que se cavam escadas, varandas com os seus restos de tapetes de quarto dependurados e o estripado dos seus interiores ao sol fresco, tem toda ela uma forma, uma alma de muralha.

Agustina Bessa-Luís

 

A cidade escreve-se com uma linha de pedra: para guardar, para separar, para afirmar. A Fernandina apertou o Porto com portas e postigos, medindo o medo e a ambição, o dentro e o fora. Hoje sobra em fragmentos – uma escada, um pano de muro, um vão discreto para o Douro – e ainda assim cumpre o essencial: lembrar que o Porto cresceu a defender-se, e a marcar o seu lugar.

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«CORAÇÃO»

JUL

UMA PALAVRA E SEUS DISCURSOS — «CORAÇÃO»

04

Coração de D. Pedro IV. Fotografia de Filipa Brito / CMP

Acordes
da guitarra que forja o horizonte,
que guia o sinuoso voo das gaivotas
e acaricia a pele que rasga atalhose atalhos
no interior dos sonhos. Estarei
vivo enquanto assim me guardar
teu coração.

Egito Gonçalves

 

O que nos liga a uma cidade? O que nos faz pertencer a um lugar? O que nos leva a identificarmo-nos com as ruas, com as pedras, com as gentes e as paisagens? Porque nos falta a chuva miudinha que continua a cair numa longínqua infância? O corpo vai para onde for preciso, mas o coração bate ao ritmo dos primeiros passos – das primeiras futeboladas, das primeiras saídas à noite – como se a cidade, mesmo longe, nos chamasse ainda pelo nome

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«RIBEIRA»

JUL

UMA PALAVRA E SEUS DISCURSOS — «RIBEIRA»

18

Cais da Ribeira e Ponte Luís I, ca. 1910. Bilhete-postal. Acervo do Arquivo Histórico Municipal do Porto

Ali o cais, a Ribeira, os rostos, as vozes, os gritos, os gestos.

Uma beleza funda, grave, rude e rouca.

 

Sophia De Mello Breyner

 

 

Duas ribeiras que namoram à distância de um mesmo Douro – a partir do Porto e de Gaia, dois autores com fortes ligações ao território e aos seus habitantes vão conversar sobre o que os aproxima e os separa, sobre o rio que passa e o rio que já passou, sobre duas cidades rasgadas pelas águas e unidas por muitas pontes.

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«LIBERDADE»

OUT

UMA PALAVRA E SEUS DISCURSOS — «LIBERDADE»

03

Alegoria à Revolução de 24 de agosto de 1820, no Porto. Desenho de António Maria da Fonseca, 1820. Gravado por Constantino de Fontes

Não há Portugal sem o Porto e não há Porto sem um permanente amor à liberdade.

 

António José Seguro

 

 

“Liberdade, liberdade, quem a tem chama-lhe sua”, a cidade do Porto sempre a teve e sempre fez questão de lhe chamar sua. Contra os desmandos do poder, contra o absolutismo, contra o centralismo, contra qualquer ameaça que ponha em causa a sua independência e a sua identidade. O Porto é uma cidade de pensamento, de indústria, de resistência e de criatividade, mais do que um arranjo de pedras e gente, é um atravessar de vozes que gritam liberdade.

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