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Ateliê António Carneiro apresenta a coleção municipal do artista

Ateliê António Carneiro, 2024. Fotografia de António Alves

O Museu do Porto inaugura, a 16 de setembro, às 18 horas, no Ateliê António Carneiro, uma exposição de longa duração dedicada à coleção municipal de obras do artista e de peças relacionadas com a sua vida e percurso. Com curadoria de Bernardo Pinto de Almeida, a mostra revela diferentes dimensões da produção de António Carneiro e o universo íntimo e familiar do próprio ateliê. A sessão tem entrada livre e contará com a presença do vereador da Cultura e Património, Jorge Sobrado.

 

A nova exposição reúne a maioria das obras de António Carneiro pertencentes à Câmara do Porto, provenientes sobretudo de doações da família e de particulares, a que se juntaram aquisições realizadas pelo Município ao longo dos anos. A partir deste acervo, constrói-se um percurso por paisagens, autorretratos, retratos de família e pelo núcleo dedicado a “Camões lendo ‘Os Lusíadas’ aos Frades de São Domingos”.

Segundo o vereador da Cultura e Património, “esta exposição permite um olhar para António Carneiro a partir do seu acervo e do Ateliê onde trabalhou. É responsabilidade do Museu do Porto cuidar das suas coleções, torná-las acessíveis e proporcionar novas leituras sobre os seus criadores. Ao mesmo tempo, o diálogo com a criação contemporânea de Manuel Rosa demonstra a persistência vital de Carneiro e do seu património, capaz de estabelecer novas relações e de interpelar o presente”.

Depois de uma primeira exposição dedicada à afirmação simbolista de António Carneiro e de uma segunda centrada na sua relação com a literatura, é agora o próprio acervo municipal que estrutura a narrativa. Como escreve o curador, Bernardo Pinto de Almeida, a reunião deste conjunto permite “manter aceso o conhecimento do artista e da sua obra fulgurante”, reafirmando a importância de António Carneiro na arte portuguesa de transição do século XIX para o século XX.

 

A família dentro e para além da pintura

A dimensão familiar atravessa toda a exposição, porque é inseparável da obra de António Carneiro e da própria história do ateliê que, hoje, tem o seu nome.

Os retratos da mulher e dos filhos de António Carneiro, a par dos autorretratos, são janelas para o universo íntimo do artista e para as relações familiares que acompanharam a sua vida e criação. Parte significativa destas obras permaneceu durante muito tempo na família, cuja relação com a coleção foi também determinante para a sua constituição.

A presença dos filhos ultrapassa a dimensão do retrato e estende-se à própria história do edifício. O ateliê foi pensado por António Carneiro como espaço de trabalho para si e para o filho mais novo, Carlos Carneiro, também pintor. Pai e filho partilharam o edifício, dispondo cada um da sua sala. Após a morte de António Carneiro, Carlos viria a habitar uma parte do edifício.

Por seu lado, Cláudio Carneyro, ligado à música, tinha projetado a construção de uma habitação no pátio norte, só concretizada após a sua morte, onde veio a viver a sua mulher, Katherine Carneiro.

 

Uma coleção em diálogo com o presente

A coleção percorre também geografias que marcaram António Carneiro. Pinturas e desenhos evocam o Porto, o Douro, Amarante e o Brasil, reunindo ainda três pequenas composições simbolistas, entre as quais um estudo para o célebre tríptico “A Vida – Esperança, Amor, Saudade”.

A literatura mantém uma presença central através do núcleo dedicado a “Camões lendo ‘Os Lusíadas’ aos Frades de São Domingos”, um dos conjuntos fundamentais da coleção municipal. A série surge agora integrada numa leitura mais ampla da obra e conserva, segundo Bernardo Pinto de Almeida, a consciência simbolista que António Carneiro nunca abandonou.

A relação entre a obra de António Carneiro e a criação contemporânea prolonga-se agora com Manuel Rosa. Depois de Miguel Branco e João Queiroz, artistas convidados das duas exposições anteriores, o escultor protagoniza o terceiro momento deste diálogo, com cinco obras, três instaladas no pátio de acesso à exposição e duas no interior, na sala dedicada à família. As suas esculturas estabelecem uma ponte entre a herança simbolista de António Carneiro e o presente.

 

O Ateliê como lugar de uma memória familiar

A exposição estabelece uma relação direta entre a coleção municipal e o espaço onde António Carneiro viveu e trabalhou, mantendo indissociáveis criação, vida familiar e memória do artista.

Construído na década de 1920 e oferecido a António Carneiro através do mecenato de Domingos Rufino, o ateliê permaneceu ligado aos seus descendentes após a morte do artista, prolongando no espaço a história que encontramos nas obras. Adquirido pela Câmara do Porto, abriu ao público como museu em 1973 e foi reabilitado e reaberto em 2024, com projeto do arquiteto Camilo Rebelo.