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Fotografia de José Maças de Carvalho, 1993
A Biblioteca Municipal Almeida Garrett inaugura, no próximo dia 22 de agosto, às 12 horas, a exposição “Na Lâmina Implacável do Tempo”, dedicada à poeta Inês Lourenço. Mostra está inserida na edição deste ano da Feira do Livro do Porto, com parte da programação em torno do universo poético da autora, mas pode ser visitada até 10 de outubro.
Com curadoria e desenho expositivo de Rita Roque, a exposição parte do arquivo pessoal de Inês Lourenço para percorrer mais de quatro décadas do seu universo poético, da atividade editorial e das redes de criação e amizade que atravessam a sua obra. Livros, manuscritos, correspondência, fotografias, objetos, documentação editorial e obras de arte revelam os diálogos entre literatura, artes visuais, pensamento e edição, num percurso que apresenta também a totalidade da obra publicada da autora.
Uma voz singular da poesia portuguesa
Nascida no Porto, a 7 de novembro de 1942, Inês Lourenço publica poesia e microficção desde 1980. Ao longo de mais de quatro décadas construiu uma voz simultaneamente íntima e crítica e, em 2023, foi distinguida com a Medalha de Mérito da Cidade. Em julho de 2026, foi-lhe atribuído o II Grande Prémio de Poesia Gil Vicente, pela Associação Portuguesa de Escritores. Para a autora, a poesia permanece um território de interrogação, como escreve em O Jogo das Comparações (2016): “Um poema / é sempre uma pergunta / sem resposta.”
A ligação ao Porto é, igualmente, indissociável do seu percurso. Para o vereador da Cultura, Jorge Sobrado, “Inês Lourenço é uma das poetas mais singulares e consistentes da literatura portuguesa dos últimos 40 anos, com uma relação umbilical à cidade do Porto, enquanto espaço alegórico e simbólico, narrativo e de vida”.
Entre poesia, edição e criação
O título da exposição nasce do poema “Reescrita”, publicado em “Coisas que Nunca” (2010), no qual Inês Lourenço escreve sobre “fender os versos / com a lâmina implacável do / tempo”. A imagem condensa algumas das linhas de força que atravessam a exposição e a própria obra da poeta: o tempo e a sua passagem, a memória e as suas fraturas, a linguagem enquanto matéria e lugar de confronto, o corpo e a condição feminina.
Um dos núcleos centrais é dedicado à revista Hífen (1987–1999), projeto editorial criado e dirigido por Inês Lourenço e espaço de encontro entre escritores de diferentes gerações, artistas, tradutores e ensaístas. Os treze números da revista estarão reunidos na exposição, que assinala igualmente o lançamento da edição inédita “Páginas Revisitadas – Cadernos Hífen” (1987–1999), recuperando uma seleção de textos originalmente publicados na revista.
O diálogo entre palavra e criação visual prolonga-se nas pinturas murais de Facio, concebidas especificamente para o projeto em diálogo com a obra da poeta. A voz de Inês Lourenço ganha igualmente presença através de um filme-entrevista, conduzido por Armando Guilherme, aproximando o visitante do seu pensamento sobre a poesia, a escrita e o próprio percurso.
Mais do que construir uma retrospetiva linear, a exposição organiza livros, imagens, documentos e diferentes formas de diálogo como uma constelação de relações, ecos e correspondências. Nas palavras da curadora Rita Roque, procura-se, sobretudo, criar condições para “escutar” a obra: acompanhar os seus ritmos, reconhecer recorrências e percorrer as metamorfoses de uma poesia que encontra na linguagem uma forma de resistência ao tempo.